Talvez você tenha digitado isso no Google numa madrugada qualquer, com o corpo cansado e a cabeça cheia. Entre uma tarefa e outra, bateu uma sensação estranha: algo em você mudou, mas não dá para explicar direito. Você segue funcionando, cuidando, resolvendo — e, ainda assim, sente um vazio silencioso.

“Não me reconheço depois da maternidade” é uma frase que aparece quando a mulher já tentou se ajustar sozinha, já tentou ser forte, e mesmo assim percebe que algo ficou fora de lugar. Não é frescura. Não é ingratidão. É um sinal psíquico real.

Isso é mais comum do que parece

Essa sensação de não se reconhecer depois da maternidade costuma surgir porque a maternidade reorganiza profundamente a identidade. Não é só a rotina que muda. Mudam prioridades, limites, relações, expectativas internas e externas. E quase ninguém prepara a mulher para esse impacto.

Muitas mães descrevem assim:

  • “Eu faço tudo no automático.”
  • “Não sei mais do que eu gosto.”
  • “Quando tenho um tempo livre, não sei o que fazer comigo.”
  • “Sou mãe o tempo todo, mas não sei quem sou fora disso.”

👉 Antes de seguir, vale dizer: essa confusão não acontece porque você está falhando. Ela acontece porque algo está se transformando.

O que realmente está por trás dessa sensação?

Essa sensação costuma confundir, porque não tem uma causa óbvia.

Na psicologia analítica, especialmente a partir de Carl Gustav Jung, entendemos que grandes transições de vida ativam processos profundos de reorganização do eu. A maternidade é uma dessas transições.

O que muitas mulheres vivem não é “perda de identidade”, mas uma quebra da identidade antiga — aquela que funcionava antes, mas que não dá mais conta da realidade atual.

O problema é que:

  • o mundo cobra produtividade;
  • o ideal de “boa mãe” cobra entrega total;
  • e quase não existe espaço simbólico para a mulher sentir o luto de quem ela era.

Sem esse espaço, o corpo e a psique começam a falar através do estranhamento.

Quando isso se prolonga, o que costuma acontecer?

Quando a mulher passa muito tempo tentando ignorar essa sensação de “não me reconheço depois da maternidade”, alguns efeitos aparecem com mais força:

  • cansaço que não melhora com descanso
  • irritabilidade constante
  • dificuldade de sentir prazer
  • sensação de estar sempre devendo algo
  • culpa por querer um tempo só seu

Não porque ela é fraca, mas porque sustentar uma identidade que não faz mais sentido consome muita energia psíquica.

Impactos no corpo e na relação com o filho

Aqui é importante falar com cuidado, sem culpa.

Quando a mulher está desconectada de si por muito tempo, isso pode aparecer no corpo e na relação:

  • o corpo vive tenso, acelerado ou entorpecido
  • a presença com o filho fica mecânica, mesmo com amor
  • surge a sensação de estar sempre “fazendo”, mas pouco “estando”

Isso não significa falta de amor. Significa excesso de adaptação sem escuta interna.

Uma leitura junguiana possível (sem complicar)

Na psicologia junguiana, entendemos que a maternidade pode ativar conteúdos profundos ligados ao feminino, à própria história com a mãe, e ao sentido da vida.

Autores como Marion Woodman mostram que muitas mulheres modernas foram ensinadas a funcionar, produzir e dar conta — mas não a habitar o próprio corpo e desejo. A maternidade escancara esse desequilíbrio.

Por isso, essa fase raramente vem como algo bonito ou espiritualizado. Ela costuma vir como:

  • confusão
  • vazio
  • sensação de deslocamento
  • vontade de sumir ou de voltar a ser quem era

Tudo isso faz parte de um processo de transformação psíquica — não de um defeito pessoal.

Então… isso é normal?

Sim. É comum. E tem nome.

Não é fraqueza.
Não é falta de amor pelo filho.
Não é ingratidão pela maternidade.

É um processo de reorganização da identidade feminina diante de uma experiência que muda tudo.

O que não é saudável é atravessar isso sozinha, em silêncio, tentando “dar conta” sem escuta.

Onde a terapia entra — sem imposição

A terapia não vem para te dizer quem você deve ser como mãe.
Ela vem para:

  • te ajudar a escutar o que mudou
  • dar contorno ao que hoje está confuso
  • criar espaço para você existir além das funções

Buscar ajuda nesse momento não é sinal de fraqueza, mas de cuidado com algo que está se transformando dentro de você.

Você não precisa estar “no fundo do poço” para merecer escuta.
Você só precisa estar cansada de sustentar tudo sozinha.

Eu sei que você está cansada.
Sei que talvez nem saiba explicar direito o que sente.
Mas sustentar essa sensação de não se reconhecer sozinha pesa — no corpo, na mente e na relação com a vida.

Cuidar de si nesse momento é um gesto de responsabilidade psíquica, não de egoísmo.


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